Tarzan grampeado
Gaúcho causa pânico nos EUA
Lutador de jiu-jítsu começou a dar socos no ar e tentou abrir a saída de emergência durante um vôo da United Airlines entre Los Angeles e Washington; acabou imobilizado por passageiros e preso

Tentar abrir a porta de um avião em pleno vôo, mesmo que não estivéssemos em uma época de paranóia em aeroportos, daria cadeia em qualquer país, ainda mais nos Estados Unidos. Foi o que lutador de jiu-jítsu gaúcho Carlos Alberto de Oliveira, 43 anos, tentou fazer na terça-feira, pondo em pânico passageiros de um vôo entre Los Angeles e Washington.
Vestido com roupas militares, Oliveira, conhecido em Porto Alegre pelo apelido de “Realce”, começou a agir de forma estranha cerca de três horas e meia depois da decolagem da Califórnia. Segundo passageiros, ele bebeu demais e começou a falar em um idioma “desconhecido” - português. Depois, passou cerca de 20 minutos no banheiro.
Quando voltou a sua poltrona, enrolou cintos nas mãos e começou a dar socos no ar. Então começou a mexer na alavanca de uma das saídas de emergência do avião. Foi quando uma das comissárias de bordo pediu que tirasse a mão da alavanca e gritou por socorro.
- Quando você ouve uma aeromoça gritar “por favor, ajudem”, você começa a temer que algo muito ruim esteja prestes a acontecer - afirmou Ken Wolfenbarger, um dos passageiros.
Assustados, alguns passageiros partiram para cima do gaúcho. Wolfenbarger contou ter segurado as pernas de Oliveira, enquanto outros o agrediram e, por fim, o controlaram. O agente federal que viaja anonimamente nos vôos de longa distância nos EUA, imobilizou suas mãos às costas com uma algema de plástico, procedimento rotineiro desde o ataque de 11 de Setembro. Stephen Lockwood, outro dos 183 passageiros do vôo, contou que ele “apanhou bastante”.
Como o comandante concluiu que Oliveira não era um terrorista, o vôo da United Airlines seguiu normalmente para seu destino, o Aeroporto Internacional Dulles, onde pousou às 20h35min locais de terça-feira (21h35min no horário de Brasília). Ontem pela manhã, ele deveria ter comparecido a um tribunal, na Virgínia. Mas se desentendeu com guardas na prisão onde está sendo mantido. Por enquanto, a acusação contra ele é de tentar interferir no funcionamento de um avião de passageiros - o que é considerado um crime federal nos EUA, mas ele ainda poderá ser processado por agressão aos guardas.
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O jiu-jítsu como filosofia de vida
Carlos Alberto Oliveira, o Realce, sempre deixou claro: o jiu-jítsu, para ele, não é uma luta, é uma filosofia de vida. Ao contrário de muitos atletas de alta performance, que começam na modalidade ainda crianças, Realce beirava os 30 anos quando conheceu a milenar arte oriental.
Foi a senha para que ele deixasse para trás um passado complicado, ligado às drogas.
- Eu não tinha nada nem ninguém para me orientar, passei por momentos difíceis, e acabei no mundo das drogas. Quando tudo parecia perdido, conheci o jiu-jítsu. Foi a minha salvação - sempre repete o lutador.
Há quase três anos, Realce começou a fazer pelos outros o que gostaria que tivessem feito por ele - criou um projeto para tirar crianças das ruas, batizado de Resgate. Divulgava com amigos, ligava para rádios e jornais, fazia o que podia para levar o projeto adiante.
- Quando eu estava no mundo das drogas, conheci muitos “filhinhos de papai”. Agora, falo com os pais deles para pedir apoio e comprar alimentos para as crianças. Como esse mundo dá voltas - contou, na época em que instituiu o projeto.
Sua devoção ao jiu-jítsu é enorme. Sempre que conhece alguém, convida-o para treinar - homens de 60 anos, mulheres de 30 ou crianças com menos de 10 anos de idade. Para todos eles, garante Realce, o jiu-jítsu “é o caminho”.
-Vai lá treinar com a gente, faz uma aulinha. Garanto que vais gostar. Não precisa pagar nada. Tu vais ser outra pessoa - costuma dizer.
Um colega de infância, que perdeu o contato quando Realce começou a andar com os “filhinhos de papai” e - por temer estas companhias - pede para não ser identificado, tem boas lembranças do amigo:
- Cara gente boa, extrovertido demais. Chamávamos ele de Tio Tarza, porque era parecido com o Tarzan.
Mesmo assim, na academia onde dava aulas de seu projeto, em Porto Alegre, um de seus antigos colegas preferiu não falar sobre a sua prisão.
Fonte: Zero Hora

