A TEORIA DO BUICK
Renovando os critérios da notícia
por Bruno Galera
[ 04/06/2004 ]
O argumento inicial
UM BUICK VERDE VEIO NAVEGANDO DE CUBA ATÉ MIAMI, COM UM MAGRÃO COM O BRAÇO PRA FORA E OUTROS DOIS TOMANDO SOL NO TETO. Desde lá, o mundo nunca mais foi o mesmo.
OK, fale mais sobre essa palhaçada
ISSO É BUICK. Observem as notícias depois de 06/02/2004: um cara pintou um iceberg de vermelho com 3000 mil litros de tinta e proclamou “este é o meu iceberg” quando questionado sobre a validade do seu ato. Nada mais faz sentido, e é só isso que importa. Pouco a pouco, “Homem mata vizinho” e “Gato é confundindo com bomba em Passo Fundo” serão o único conteúdo possível para os diários do mundo. Quando O Dia chegar, Cortázar soará como Rubem Fonseca, e todos rirão em escárnio frente a tamanha falta de criatividade e imaginação. Não há saída senão acompanhar a revolução.
Tá, mas isso é quente, mesmo?
Num mundo sensato e menos birrento, bastaria informar que absolutamente todas as matérias citadas nos parágrafos anteriores são de verdade. Todas elas foram publicadas em veículos de alcance global, sejam eles impressos ou digitais.
Mas como essa gente toda se acha espertinha e investigadora, proclamando que filmes como “O Senhor dos Anéis” são “impossíveis” em altos brados perscrutadores da verdade última, faz-se necessária uma ação mais dura. Por isso, planificaremos os conceitos da Teoria do Buick adiante.
Que baita mané! Nunca ouviu falar de portais de boatos ou coisas como o “Popular”?
Notícias bizarras o mundo sempre teve, caro colega de pretenso cerebelo vitaminado. Isso é bastante óbvio, e já comia solto bem antes do tio Gutemberg inventar aqueles tipos móveis que se usa até hoje em alguns jornais do interior. A questão, obviamente, não é só essa.
A Teoria do Buick contempla, naturalmente, a inclinação do ser humano por comportamentos patéticos ou simplesmente surreais. Mas o grande foco, na verdade, são as nuances jornalísticas empregadas por redatores desse mundão na hora de dar esse tipo de notícia, com o velho caráter imparcial e objetivo que se reza nas cartilhas de redação por aí.
Vamos estudar um exemplo recente, veiculado na influente agência internacional Reuters:
Platéia alemã saboreia Orquestra de Vegetais
HAMBURGO, Alemanha - O som de 40 quilos de pepinos, alhos-porós, batatas, rabanetes, pimentas e beringelas bem afinados divertiram uma platéia alemã em um concerto de fim de semana realizado pela Orquestra de Vegetais vienense.
A orquestra de nove instrumentos toca uma variedade de composições originai. Os instrumentos são construídos de vegetais e incluem uma flauta feita de uma cenoura, um saxofone esculpido em um pepino e uma abóbora convertidos em baixo.
“Eu nunca pensaria que seria possível tirar som de um pepino”, disse uma jovem no concerto. Outras pessoas fizeram comentários sobre o aroma de vegetais crus que acompanhava as melodias.
Segundo o conjunto austríaco, composto por três mulheres e seis homens, os instrumentos são cortados pouco antes e usados uma hora antes de cada apresentação para acentuar o som. Tamanho, textura e quantidade de água são vitais para alcançar o som correto.
“Vegetais comuns funcionam melhor que vegetais orgânicos”, disse Matthias Meinharter, que toca um violino feito de alho-poró.
Os músicos devem ainda trabalhar contra o relógio. Para evitar que seus instrumentos sequem durante a apresentação, eles colocam tecidos úmidos em volta dos vegetais quando eles não estão sendo usados.
No fim da apresentação, os instrumentos viram uma sopa de vegetais.
Hahaha, é uma notícia engraçadinha e não-convencional para animar a finaleira do Jornal Hoje, enquanto aquele molusco que antes dava o boletim do tempo tenta não tropeçar nas duas linhas que tem que ler no tele-prompter a cada bloco.
Isso pode ser real, caso o acadêmico não esteja imbuído do conceito de nuance buickeana, que podemos destacar no seguinte trecho:
Outras pessoas fizeram comentários sobre o aroma de vegetais crus que acompanhava as melodias.
Ora, mas que DEMÔNIOS isso faz no texto? Quem comentou sobre o aroma de vegetais crus? Quem foi o gênio do universo que PERGUNTOU isso para as pessoas presentes à ocasião? E mais importante do que qualquer outra coisa, COMO DIABOS ALGUÉM NÃO SENTIRIA CHEIRO DE VEGETAIS CRUS QUANDO ELES ESTÃO SENDO MANIPULADOS NUM RECINTO FECHADO? Como já diria um sábio pensador polivalente, “é muita semiótica”.
Exercitando a cátedra
Agora que estamos treinados a perceber que o Fator Buick de cada matéria não precisa necessariamente estar contido em alguma história estranha, fica mais fácil de delimitá-lo em todo tipo de texto, até em coisas que, de certo modo, deveriam operar como SÉRIAS na imprensa.
Seguem alguns recortes ilustrativos pinçados de diversas fontes (mencionadas no final de cada trecho). As partes notadamente buickeanas estão em negrito:
O juiz João Carlos da Rocha Mattos foi transferido na noite de quarta-feira da carceragem da Polícia Federal em São Paulo para a superintendência do órgão em Brasília. Denunciado como um dos autores do esquema de venda de sentenças judiciais investigado pela Operação Anaconda, da PF e do Ministério Público Federal, ele foi transferido porque estava agressivo dentro da cela.
O juiz viajou em um vôo comercial e chegou ao aeroporto, ontem, acompanhado por seis policiais. Perguntado pela imprensa sobre a avaliação da transferência, ele disse que era seqüestro, e completou:
- Seqüestro político.
[ClicRBS]
Meu deus do céu, esse juiz Rocha Mattos é um GÊNIO. Alguém já viu as entrevistas que ele dá? Os depoimentos? As matérias que conseguem fazer sobre ele? Só pérolas. “Essas acusações não fazem sentido algum”. Mestre do discurso buickeano.
E tem mais:
Em tom de ironia e deboche, o juiz afastado chamou o Ministério Público de “irresponsável” e sugeriu à CPI fazer representações contra o ministro Márcio Thomaz Bastos (Justiça) e o diretor-geral da Polícia Federal, Paulo Lacerda.
“Ao se olhar para as procuradoras [Janice Ascari e Ana Lúcia Amaral] se vê que elas são totalmente estranhas“, afirmou.
[Folha de São Paulo]
Nessas duas partes, temos um claro TWO-HIT-WONDER por parte do nosso querido juiz. Nem foi preciso que um estagiário qualquer resolvesse modernizar a notícia com a vanguarda. O próprio homem da lei tratou de deliberar os elementos necessários no seu discurso.
Não foi o caso dos colegas do jornal O Globo, que emendaram uma pérola sucinta sobre o caso:
O juiz está numa cela junto com outro preso. A cela tem 6 metros quadrados. O jantar foi carne, salada, feijão e macarrão e ele dispensou.
Vai treinando
Com alguns exemplos elencados, é fácil começar a praticar a observação dia-a-dia, no seu regime habitual de leituras. Portais de internet são boas fontes para começar, já que englobam material proveniente de agências de notícia de toda a parte. Com a devida percepção dos fatos, fica simples de implantar o meme em seu blog ou coisa parecida. Daí em diante é só diversão.
E pra quê serve tudo isso?
Diversão. Sem humor, a existência rui.
[Publicado originalmente na revista eletrônica Fraude, 04/06/2003]