Ajudante de Papai Noel

Operação Cerol: “Papai Noel” agia na Polícia Federal

O advogado Tarcísio Pelúcio, acostumado a distribuir presentes e a ser uma espécie de Papai Noel de delegados da Polícia Federal, oferecendo presentes para receber favores, viu a boa-vida começar a ruir no início do ano. A nomeação do novo superintendente da PF no Rio, Delci Carlos Teixeira, em abril, caiu como uma bomba sobre o grupo que dominava a instituição e que teve 17 integrantes presos sexta-feira.

Gravações telefônicas autorizadas pela Justiça mostram que o empresário Paulo Henrique Villela Pedras e Pelúcio não pouparam esforços para evitar a nomeação de Delci e manter no cargo José Milton Rodrigues, acusado de favorecer advogados e empresários nos inquéritos policiais em troca de presentes e regalias.

Ontem, a reportagem mostrou, com exclusividade, trechos da decisão da juíza Ana Paula Vieira de Carvalho, da 6ª Vara Criminal Federal, na qual aparecem negociações entre delegados e Pelúcio para favorecer seus clientes. Segundo a investigação, empresários pagaram até prostitutas e bebidas a policiais como retribuição de favores.

Em outra parte do documento, a juíza registra que Paulo Henrique marcaria viagem a Brasília para pedir pessoalmente ao senador Renan Calheiros para que intercedesse a favor de José Milton. “De fato as articulações políticas de Pelúcio e Paulo Henrique para manutenção de José Milton no cargo foram intensas, abrangendo desde pedidos junto ao presidente do Senado Federal e deputados federais até a tentativa de contatos com o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF)“, relata a magistrada, referindo-se a Ricardo Teixeira.

As conversas foram interceptadas em março, um mês antes da posse de Delci. Nelas, Pelúcio - depois de reunião de duas horas na superintendência com o diretor executivo Roberto Prel e José Milton - avisa ao empresário ter recebido alerta do próprio superintendente de que seu substituto chegaria “para botar fogo no circo”. Desesperado, o advogado chegou a vasculhar seus cartões de visita para ver quem poderia ajudá-lo.

Prêmio da prefeitura

Sua luxuosa casa na Tijuca - onde foram encontrados documentos da PF e US$ 30 mil na Operação Cerol, sexta-feira - recebeu o prêmio da prefeitura do Rio de melhor decoração natalina, em 2003, e virou atração turística, sendo mostrada até em TVs européias. Na época, sua mulher, a agente de viagens Sheila Pelúcio, disse que toda a produção foi artesanal. Como prêmio, o casal Pelúcio assistiu à queima de fogos de Copacabana em área VIP com autoridades.

Festa no Jockey

Pelúcio, que só chamava José Milton de “chefe”, disse ao empresário que procuraria, em São Paulo, um amigo do ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, para impedir a mudança.

Como não foi bem-sucedida nas articulações, a dupla passou a arquitetar como cooptaria o novo superintendente a participar do esquema. “Apesar de ele ser linha-dura, é meio vaidoso“, arriscava Pelúcio, que propôs realizar a posse de Delci no Jockey Club, mesmo lugar onde ocorreu a de José Milton, há dois anos. Como vice-presidente do clube e sócio da cervejaria Itaipava, Paulo Henrique trataria dos detalhes da festa. A cerimônia, porém, aconteceu na superintendência, na Praça Mauá.

Reunião dá novo rumo a inquéritos

De acordo com a denúncia da juíza, no dia 10 de fevereiro, uma reunião entre os delegados José Milton Rodrigues, Roberto Prel e o então chefe da Delegacia de Combate a Crimes Financeiros (Delefin), Paulo Baltazar, resultou numa repentina mudança na distribuição de 44 inquéritos. Entre os nomes citados naquelas investigações estariam o de algumas pessoas “do âmbito de relacionamento de Tarcísio Pelúcio“, como o presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro, e Antônio Joaquim Peixoto de Castro, do grupo controlador da Refinaria de Manguinhos.

Segundo o documento, a lista “estaria relacionada à rumorosa investigação Banestado/Farol da Colina/conta Beacon Hill”, escândalo descoberto em 2003, no qual US$ 30 bilhões foram enviados ilegalmente para o Exterior através do banco paranaense.

Um mês antes, gravação da PF mostra Tarcísio Pelúcio dizendo a Paulo Henrique que perguntaria ao “chefe” José Milton o que havia chegado à Delefin. Em 11 de fevereiro, Baltazar pôs sob sua responsabilidade 44 inquéritos.

Com o delegado Jairo Kullmann, responsável pela seção de precatórios da PF, Pelúcio teria acertado até perguntas e respostas de investigados, como o ex-ministro da Agricultura, Pratini de Moraes, e membros do grupo Peixoto de Castro. Montenegro não foi encontrado para comentar e Pratini negou conhecer Pelúcio ou ter recebido cartas precatórias.

Fonte: Terra

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